Panfletos usados pelo Corsini na década de 1990, com os direitos dos pacientes de Aids: trabalho histórico e solidário (Foto Reprodução)

Quatro décadas da AIDS e as respostas solidárias que Campinas deu

A pandemia de Covid-19 assusta, mata e dilacera, mas desde o mês de junho de 1981 o mundo convive com uma catástrofe sanitária que ainda parece longe de terminar e que já provocou mais de 32 milhões de óbitos. Esse é o número de vítimas fatais da AIDS, a doença provocada pela infecção do Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV é a sigla em inglês). Em 2021 serão, portanto, quatro décadas de guerra planetária contra o HIV-AIDS e nessa trajetória a cidade de Campinas tem capítulos importantes, em termos da luta contra o estigma e por um tratamento humanitário e solidário para as vítimas, incluindo as crianças.

Foi em junho de 1981 que cientistas dos Estados Unidos (mais especificamente, do Centro de Controle de Doenças de Atlanta) identificaram os primeiros casos da síndrome de imunodeficiência adquirida (AIDS, em inglês). No ano seguinte foram divulgados os estudos que apontaram a cadeia de transmissão e a doença foi batizada e em 1983 identificado o HIV como o vírus causador da AIDS. Desde então a AIDS se espalhou pelo planeta e as estimativas da UNAIDS – Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV-AIDS – são de 75 milhões de pessoas foram infectadas com o HIV desde o início da epidemia, para muitos pandemia, pelos números gigantescos alcançados.

Houve avanços no tratamento, diminuiu o preconceito, mas os desafios permanecem e são muito grandes. A UNAIDS calcula que 38 milhões de pessoas vivem hoje com o HIV, com 1,7 milhão de novas infecções em 2019. Regiões da África e da Ásia são as mais atingidas, mas em toda parte a preocupação permanece e no Brasil os números são inquietantes.

O Brasil já foi um exemplo de sucesso nas ações de combate à AIDS, com base no Sistema Único de Saúde (SUS). O tratamento gratuito para pacientes em hospitais públicos é assegurado desde 1996. A expectativa de vida, que era de cinco anos depois do contágio pelo HIV, subiu para mais de 12 anos.

Entretanto, nos últimos anos os avanços estacionaram. Entre 2010 e 2018 o número de novos contágios anuais cresceu, de 44 mil para 53 mil, ou 21% de aumento, contra a taxa de crescimento médio na América Latina toda de 7%. Especialistas atribuem esse incremento, entre outros fatores, à diminuição das campanhas e ações de prevenção. Muito ainda precisa ser feito, portanto, para que os avanços não sejam perdidos nos próximos anos.

Campinas e a AIDS – Neste cenário de muita dor, Campinas apresenta histórias de solidariedade e esperança, desde a eclosão da AIDS. Os primeiros casos foram diagnosticados na cidade em 1982. Os primeiros contatos da sociedade campineira em geral com a doença foram um misto de sentimento de impotência e boas doses de preconceito, aliás como ocorreu em todo mundo.

Contudo, logo um grupo de pesquisadores da Unicamp teria um papel determinante para a transformação dessa atitude. Sob a coordenação do médico Antônio Carlos Corsini, professor nos Departamentos de Microbiologia e Imunologia da Universidade, o grupo se incumbiu da missão de difundir informações precisas sobre a doença, e de estimular novos procedimentos sociais em relação aos portadores do vírus HIV.

Em setembro de 1982 Corsini participava de um curso de Imunologia em Lausanne, Suíça, quando contraiu uma grave doença. Retornou ao Brasil em janeiro de 1982 e, mesmo doente, continuou se dedicando aos trabalhos com a AIDS.  O médico morreu em 29 de janeiro de 1984.

Três anos depois, a 20 de janeiro de 1987, um grupo de estudiosos que haviam sido orientados pelo professor da Unicamp fundou o Centro de Controle e Investigação Imunológica “Dr.Antônio Carlos Corsini”, em homenagem ao pioneiro da compreensão da AIDS em Campinas.

Da mesma forma como ocorreu com outras instituições pioneiras, como o Centro Boldrini e a Sobrapar, o Centro Corsini alcançaria o status de referência internacional na área de AIDS. Sob a direção da médica Sílvia Bellucci, o Corsini passaria a prestar completo atendimento a portadores do HIV, no âmbito da infectologia, imunologia, psiquiatria e tratamento dentário. A instituição se dedicaria, do mesmo modo, a promover várias campanhas de esclarecimento sobre a doença, em termos da prevenção e do combate aos preconceitos, inclusive com a estruturação de um DISK-AIDS.

Uma das cartilhas produzidas pelo Corsini para o Projeto Colmeia (Foto Reprodução)

Projeto Colmeia – Em julho de 1996, o Centro Corsini apresentou cinco de seus trabalhos na 11a Conferência Internacional de AIDS, realizada no Canadá. Era a confirmação do reconhecimento internacional ao esforço da organização de Campinas. Entre os projetos apresentados estava o de treinamento de dentistas para o tratamento de aidéticos e o Colmeia, de prevenção da AIDS junto a mulheres pobres da periferia de Campinas.

Inicialmente financiado pelo Ministério da Saúde, o Projeto Colmeia passou a ser patrocinado pela Fundação FEAC em 1995. O Projeto seria desenvolvido sobretudo entre os Grupos de Mulheres ligados às creches pertencentes à rede FEAC, que também financiou a confecção de uma cartilha com orientações sobre a AIDS, dedicada às mulheres de baixa renda.

O Colmeia alcançou projeção nacional e internacional, entre outros motivos porque demonstrou sua eficácia em um momento de radicais transformações no perfil da contaminação com o vírus HIV. Quando o Colmeia foi iniciado, em 1992, a contaminação de mulheres com o vírus ainda não era alarmante. Em 1991, para cada 15 homens infectados havia um caso de mulher identificada com o vírus. Nos anos seguintes a proporção foi caindo e, em 2000, já havia um caso de mulher contaminada para cada dois casos no sexo masculino, dado que acentuava a vulnerabilidade cada vez maior entre o sexo feminino e a importância de iniciativas como o Projeto Colmeia.

As projeções do Corsini são de que mais de 100 mil pessoas foram beneficiadas com as ações multiplicadoras de esclarecimento sobre DST-AIDS proporcionadas pelo Colmeia apenas nos primeiros 10 anos de atuação. Foram sobretudo moradores de bairros de baixíssima renda de Campinas, sem outros recursos de informação do que as reuniões e palestras propiciadas pelo projeto.

O trabalho do Corsini na prevenção à AIDS foi tema de várias produções científicas, como a tese de doutorado “Educação em saúde: um estudo de caso na prevenção da AIDS”, apresentada por Sonia de Almeida Pimenta na Faculdade de Educação da Unicamp.

Corsini mudou missão, mas manteve a chama solidária (Foto Divulgação)

Apoio infantil – Além das mulheres, integrantes em número crescente dos chamados grupos de risco, o Centro Corsini passou a se dedicar às crianças vítimas da AIDS. Em 1994 foi inaugurada a Unidade de Apoio Infantil da instituição, que também deflagraria, no final de 1997, um amplo trabalho dedicado a atender os órfãos da AIDS em Campinas.  Estimativas do Projeto Mundial para Órfãos, financiado pela Fundação John Snow, vinculada à Universidade de Harvard, indicavam a existência em Campinas de pelo menos três mil crianças órfãs da AIDS.

A proliferação da AIDS continuaria, então, deixando um rastro de dor em Campinas nos anos 80 e 90, mas organizações como o Centro Corsini representaram sem dúvida uma sólida esperança para os portadores do HIV. A entidade também passou a promover o Corsini Itinerante, mobilizando diversos recursos sociais, em várias regiões de Campinas, em eventos constando de testes gratuitos de AIDS, distribuição de preservativos e palestras. Eventos do Corsini Itinerante foram realizados, no início do século 21, em locais como o Centro Comunitário do Jardim Santa Lúcia (março de 2001) e Creche Adélia Zornig, no Parque Valença II (setembro de 2001).

Em janeiro de 2002, mais precisamente no dia 19, a presidente do Corsini, Silvia Bellucci, anunciou o início das obras das instalações próprias da Unidade de Apoio Infantil (UAI), destinada a receber crianças e adolescentes, dos dois sexos, portadoras do vírus HIV. O novo espaço seria construído em uma área no Parque Taquaral de 3,2 mil metros quadrados, viabilizada pelo Rotary Club de Campinas Leste e Prefeitura Municipal.

Com a estrutura própria o número de vagas na UAI, que funcionava em prédio alunado no parque São Quirino, ampliaria de 14 para 48. Os estudos iniciais do projeto tiveram a participação do arquiteto Antônio da Costa Santos, o prefeito de Campinas assassinado a 10 de setembro de 2001. Em homenagem a Santos a rua de acesso às casas da nova UAI receberia o nome de Rua da Pipa, o símbolo da campanha eleitoral do ex-prefeito.

A Dra.Silvia Bellucci faleceu a 30 de dezembro de 2012. As dificuldades financeiras do Corsini foram agravadas e diversos segmentos sociais se empenharam em apoiar a entidade. Caso da Sociedade de Medicina e Cirurgia de Campinas (SMCC), que promoveu vários eventos de respaldo à organização.

Em 2000, a Cúpula do Milênio lançou, em Nova York, os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, um conjunto de metas para a comunidade internacional atingir até 2015. Entre as metas, a redução importante da proliferação do HIV/AIDS, que ainda é um flagelo sobretudo na África. Pois o trabalho da Dra.Silvia Bellucci também chegou à África,  com uma importante atuação em Moçambique. 

Exemplo de solidariedade, o Corsini tem uma bela história, mais uma resposta positiva que Campinas deu a um imenso desafio coletivo. Em 2017 a entidade mudou sua missão, tornando-se um abrigo para acolhimento de crianças em alta situação de vulnerabilidade. A chama da solidariedade continua acesa.

Esperança e vida – Outras organizações de Campinas também se dedicaram a atender vítimas da AIDS, como a Associação de Apoio a Portadores de Aids Esperança e Vida, criada em 1990. A Associação passou a atender portadores do HIV em suas instalações nos Campos Elíseos.

A Secretaria Municipal de Saúde de Campinas tem um histórico de trabalho importante sobre HIV-AIDS, desde a criação em 1990 do AMDA – Ambulatório Municipal de DST/Aids, estruturado para dar respostas às demandas de assistência aos doentes com Aids e desenvolver ações educativas e de prevenção.

Em 1993 foi constituído o Programa Municipal de Doenças Sexualmente Transmissíveis e Aids (PMDST/Aids), e em 1994, implantado o primeiro COAS – Centro de Orientação e Apoio Sorológico, que passou a assumir as ações de prevenção e aconselhamento para testagem do HIV, conforme preconizava o Ministério da Saúde.

O Centro de Referência (CR) em DST/Aids foi criado em 2002, agregando o AMDA, o COAS e o ADT (Atendimento Domiciliar Terapêutico, que existia desde 1996). Mais tarde, o COAS passou a ser denominado CTA – Centro de Testagem e Aconselhamento, seguindo os critérios do Programa Nacional de DST/Aids. O Centro de Referência em DST/Aids hoje tem o nome da Dra.Silvia Brandão Bertazolli Bellucci, em homenagem à médica que por tantos anos liderou o trabalho do Centro Corsini.

E as pesquisas sobre AIDS continuam, nas instituições científicas de Campinas. O Laboratório de Pesquisa em Aids (LPAids), da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp e instalado no Hospital de Clínicas, foi inaugurado em 9 de agosto de 1988 e é responsável pela realização dos exames sorológicos para triagem do HIV, contagem de CD4/CD8 e quantificação da carga viral para serviços de saúde de 42 cidades, perfazendo em mais de 3700 exames/mês. Recentemente o Laboratório passou a realizar os exames de carga viral para Hepatites B e C e faz parte da Rede de Referência do Ministério da Saúde. 

O HC da Unicamp recebeu o primeiro paciente brasileiro com AIDS, em 1982. Ele tinha percorrido vários hospitais até chegar à Enfermaria de Moléstias Infecciosas do HC. O caso foi estudado e debatido por uma equipe integrada pelos médicos Fernando Lopes Gonçales, Marcelo de Carvalho Ramos, Maria Luiza Moretti, Rogério de Jesus Pedro e Luiz Jacintho da Silva, este já falecido. O caso foi relatado na revista da Associação Paulista de Medicina. Campinas conhece, portanto, a AIDS praticamente desde a sua gênese e tem uma história de busca da melhor compreensão e olhar sobre a doença. Mais um exemplo da vocação solidária da cidade. (Por José Pedro S.Martins)

 

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